Se os ativos ambientais sempre existiram, por que só agora estamos falando deles?
Se os ativos ambientais sempre existiram, por que só agora estamos falando deles?
Durante muito tempo, ouvimos que o Brasil é um país rico.
Essa afirmação atravessa gerações. Está nos livros escolares, nos discursos políticos, nas campanhas de preservação e até nas conversas do dia a dia. Somos ricos em água, em florestas, em biodiversidade, em terras férteis e em uma diversidade de paisagens que poucos países possuem.
Mas existe uma curiosidade nessa história.
Quando falávamos sobre riqueza, quase nunca estávamos falando dessas riquezas.
Nas reuniões de negócios, nos planos de desenvolvimento, nos indicadores econômicos e nas decisões de investimento, a conversa seguia outro caminho. O foco estava na produção, na infraestrutura, na tecnologia, na produtividade e no crescimento. A natureza aparecia como pano de fundo, como cenário onde tudo acontecia, mas raramente como parte da própria estratégia.
Era como se existissem duas histórias paralelas.
De um lado, a economia.
Do outro, a natureza.
Hoje sabemos que essa separação nunca existiu. Ela fazia parte apenas da forma como aprendemos a enxergar o desenvolvimento.
Nenhuma empresa produz água.
Nenhuma indústria fabrica solo fértil.
Nenhuma tecnologia substitui a diversidade de organismos que mantém os ecossistemas funcionando.
Ainda assim, durante muito tempo, esses processos permaneceram praticamente invisíveis nas decisões econômicas. Eram considerados permanentes, abundantes ou simplesmente garantidos. Quando funcionavam, passavam despercebidos. Quando deixavam de funcionar, eram tratados como problemas ambientais, e não como questões estratégicas.
Foi essa percepção que começou a mudar.
Não de um dia para o outro. Nem por causa de uma única lei ou de uma tendência de mercado. A mudança foi construída lentamente, à medida que a ciência passou a demonstrar, com cada vez mais evidências, que a economia depende profundamente do funcionamento dos ecossistemas.
Entre 2001 e 2005, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio reuniu o trabalho de mais de 1.360 especialistas de diferentes países para avaliar como as mudanças nos ecossistemas afetam o bem-estar humano.
A conclusão foi direta. Os ecossistemas fornecem serviços indispensáveis para a vida e para a economia, como a produção de água, a polinização das culturas agrícolas, a fertilidade dos solos, a regulação do clima, o controle de enchentes e a manutenção da biodiversidade. Quando esses sistemas são degradados, os impactos não permanecem restritos ao meio ambiente. Eles alcançam a agricultura, a indústria, a infraestrutura, a saúde pública e a estabilidade econômica.
Essa foi uma mudança importante.
Pela primeira vez, um grande esforço científico internacional consolidava uma ideia que muitas comunidades tradicionais já conheciam pela experiência cotidiana: a natureza não é um elemento externo ao desenvolvimento. Ela cria as condições para que o desenvolvimento aconteça.
Poucos anos depois, essa percepção ganhou ainda mais força.
O relatório global da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), publicado em 2019, alertou que aproximadamente um milhão de espécies corre risco de extinção e que a degradação dos ecossistemas representa uma ameaça crescente à segurança alimentar, ao abastecimento de água, à estabilidade climática e ao bem-estar das populações.
Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos passaram a produzir impactos cada vez mais visíveis sobre cidades, cadeias produtivas, infraestrutura e mercados.
O que antes era percebido apenas como um desafio ambiental começou a ocupar espaço nas agendas econômicas.
A pergunta deixou de ser apenas "como reduzir impactos ambientais?"
Passou a ser outra.
Como garantir a continuidade de uma economia que depende de sistemas naturais cada vez mais pressionados?
Essa mudança de perspectiva alcançou governos, empresas e investidores.
O Fórum Econômico Mundial estima que a transição para uma economia positiva para a natureza pode gerar até US$ 10 trilhões em novos negócios por ano e criar aproximadamente 395 milhões de empregos até 2030. Não se trata apenas de conservar florestas ou proteger espécies. Trata-se de reconhecer que ecossistemas saudáveis sustentam atividades econômicas, reduzem riscos e ampliam oportunidades de inovação e desenvolvimento.
Pouco a pouco, a natureza deixou de ser vista apenas como fonte de recursos.
Passou a ser compreendida como parte da infraestrutura que sustenta a própria economia.
Essa mudança ajuda a explicar por que expressões como capital natural, serviços ecossistêmicos, Nature Positive e ativos ambientais passaram a ocupar um espaço que antes parecia improvável nas estratégias empresariais e nas políticas públicas.
Mas ela também nos convida a olhar para o Brasil de outra maneira.
Durante décadas, repetimos que somos um país privilegiado por sua riqueza natural.
Hoje começamos a compreender que essa riqueza representa muito mais do que um patrimônio ambiental.
Ela pode representar uma vantagem estratégica em um mundo que aprende, gradualmente, a reconhecer o valor dos sistemas vivos.
É exatamente nesse ponto que os ativos ambientais deixam de ser apenas um conceito técnico.
Eles passam a fazer parte de uma conversa muito maior sobre desenvolvimento, competitividade e futuro.
Continua...
Referências:
MILLENNIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT. Ecosystems and human well-being: synthesis. Washington, DC: Island Press, 2005. Disponível em: Millennium Ecosystem Assessment – Synthesis Reports. Acesso em: 13 ago. 2026.
IPBES – INTERGOVERNMENTAL SCIENCE-POLICY PLATFORM ON BIODIVERSITY AND ECOSYSTEM SERVICES. Global assessment report on biodiversity and ecosystem services. Bonn: IPBES Secretariat, 2019.
WORLD ECONOMIC FORUM. The future of nature and business. Geneva: World Economic Forum, 2020. (New Nature Economy Report II). Disponível em: The Future of Nature and Business. Acesso em: 13 ago. 2026.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Biodiversidade. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, [s. d.]. Disponível em: Biodiversidade – MMA. Acesso em: 13 ago. 2026.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Contas de Ecossistemas. Rio de Janeiro: IBGE, [s. d.]. Disponível em: Contas de Ecossistemas – IBGE. Acesso em: 13 ago. 2026.
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LEE, Hokyoung et al. Nature-related risk assessment approaches for the financial sector: applicable approaches and implications in East Asia and Pacific. Washington, DC: World Bank, 2024. Report n. 192437. Disponível em: World Bank – Nature-Related Risk Assessment. Acesso em: 13 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono – SEMC. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, [s. d.]. Disponível em: Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Acesso em: 13 ago. 2026.